Cherub

Um continho bem curto dessa vez!

(pra quem não quiser ler no layout esquisito do WordPress: Cherub )

Cherub

Anna Paulie transbordava de felicidade.

Tinha apenas oito anos mas achava que nunca mais seria tão feliz assim novamente.

A seu ver, seu irmão sempre estudou na universidade. Anna deliciava-se com as histórias que ouvia sobre o campus.

De olhos arregalados, acreditava completamente nas descrições de máquinas superfuturistas que haviam lá. Assim como nas plantas e animais fantásticos de todo o mundo que eram mantidos no mesmo local.

Estava finalmente conhecendo pessoalmente o campus. Tinha apreciado a entrada (realmente grande e imponente como seu irmão a descrevera, embora Anna a tivesse imaginado como a entrada de Hogwarts) e os corredores, largos e brancos.

Sentada na arquibancada do ginásio, via as piscinas de longe, ao lado de seus pais. Estavam perto, mas não perto o suficiente para uma criança curiosa. E era longe o suficiente para que não conseguisse distinguir seu irmão entre os competidores.

Queria perguntar a seus pais qual era ele, mas a todo momento se distraía, fosse com o professor dando instruções aos atletas se alongando, ou com alguém conversando próximo a ela, sobre um assunto inédito a seus ouvidos.

Perdida entre tantas novidades, se reconfortava por estar perto de sua mãe e na maciez familiar de seu urso de pelúcia, Cherub.

E assim, ouvia as conversas, apertava Cherub e continuava procurando seu irmão.

Sentado próximo a Anna e seus pais – e tão entediado quanto ela estava empolgada –, estava Frank.

Sim, ele amava seu filho, embora nunca tenha dito essas palavras a ele nem demonstrado-as claramente. Por sua criação, sentia-se incomodado só de pensar nelas.

Mas lá estava ele, sentado na dura arquibancada da universidade, em um calor infernal, só para vê-lo nadar em um campeonato interno.

O ginásio era grande, mais comprido que largo, dividindo suas quadras apenas com redes brancas estendidas. E aqui, no canto mais agredido pelo sol, estava a piscina. A acústica dali fazia toda a algazarra parecer dez vezes maior.

E mesmo assim, Frank sabia que a garotinha e sua família, sentados logo abaixo, seria o que mais o irritaria.

Por enquanto, ela continuava apenas sentada e quieta, agarrada a seu ursinho amarelo, olhando atenta para os arredores da piscina.

Frank já havia reconhecido o franzino Frank Jr se alongando.

Frank, o pai, queria apenas que começassem (e terminassem) logo com isso. Não tinha nada de bom para fazer em casa, mas queria sair daquele calor absurdo.

Não foi com o melhor dos humores que deu atenção parcial ao estranho ao seu lado.

– … ilho?

– Como é? – Frank tinha perdido o começo da frase; talvez tivesse evaporado a caminho de seus ouvidos.

– Qual é o seu filho? – repetiu o animado estranho.

– O número quatro, de touca verde. – apontou Frank.

– Ah, o meu é o onze, de azul.

O silêncio desinteressado de Frank deve ter parecido um convite a mais interações.

– Sabe me dizer porque eles usam cores diferentes?

– Hã… São dois nadadores de cada curso.

– Aaah, sim. Entendi. O meu Josh cursa engenharia.

Com um suspiro e um balançar de ombros que soavam como um “Por que não?”, Frank decidiu conversar de fato com o estranho.

“O Frank Jr faz Biologia.”

“Hã… O Josh faz natação desde pequeno… Desculpe perguntar, mas é que…”

“ Pois é. O Frank nunca foi de fazer esportes. Parece que ele precisava de horas em atividades extracurriculares ou outro nome qualquer.

Ele escolheu natação porque disse que parecia o mais tranquilo, mas acabou não sendo exatamente assim. Ele quis sair depois de umas semanas mas eu não deixei. Não quero que ele cresça achando que pode desistir das coisas por causa de uma dificuldade ou outra.”

Quase sem conseguir disfarçar o riso na voz, o pai de Josh perguntou: “Mas o que tem de tão terrível assim na natação?”

“O exemplo que ele usa pra explicar,” – continuou Frank, ignorando o sarcasmo do estranho – “envolve aranhas.

Ele diz que os alunos fazem experiências com algumas aranhas de uma espécie específica, não me pergunte o nome. Coisas como esconderem as melhores comidas nos lugares mais quentes das gaiolas. Ou a comida ficar menos tempo ao alcance quando as luzes se acendem, entende?

Daí elas vão pra onde eles querem, na velocidade que eles querem, depois de repetirem essas coisas algumas vezes.”

“Eu entendi as experiências, mas o que isso tem a ver com a natação, amigo?”

“Por exemplo, o treinador dis que caso eles não consigam fazer um determinado número de voltas no tempo determinado, farão o dobro de voltas, contando do zero novamente assim que o tempo acabar.

E parece que às vezes ele agrava as coisas, fazendo com que todos cumpram a “pena” caso um deles não consiga terminar as voltas a tempo.

Assim, por conta própria, eles têm a iniciativa de sugerir correções pros colegas durante os treinos livres. Funciona, mas é um pouco cruel e antiquado.”

“Igual com as aranhas…”

“Igual com as aranhas.”, repetiu Frank, sentindo orgulho da inteligência de seu filho.

Ficaram em silêncio, reparando novamente no calor e barulheira do ginário. Para alívio de Frank, os alunos estavam se posicionando para começar a competição.

Foi por um ligeiro instante, mas Frank teve certeza do que sentiu.

Algo leve, porém profundo. Como uma corrente elétrica passando pelo ar. Quase como um presságio.

A mãe de Anna também sentiu-se estranha.

A própria Anna havia descido até as grades, inconformada por ainda não ter reconhecido seu irmão. Quem sabe ela precisasse de óculos dentro alguns poucos anos.

A sensação se acentuou e a mãe de Anna quis chamá-la de volta, mas não queria atrapalhar sua diversão. Seu marido diria para ela parar de bobeira caso tivesse a coragem de contar a ele o que sentia.

Decidiu ficar apenas remexendo-se inquieta, coçando a nuca levemente suada.

Estava quente e o sol do fim de tarde ainda fornecia bastante luz. Ainda assim, acenderam os holofotes no teto, quase simultaneamente ao forte apito do juiz.

Tanto Frank quanto a mãe de Anna perceberam com o canto dos olhos um movimento próximo às grades. Quase ao mesmo momento que os competidores atingiam a água.

Anna não percebia nada além dos nadadores. Finalmente havia reconhecido seu irmão.

Apertou Cherub contra seu peito e pescoço, sem perceber o que havia subido nele.

E seu irmão, com a cabeça dentro dágua, não a ouviu gritar de dor.

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